Eu sempre me perguntei se um dia, conheceria a raiva.
Não essa raiva momentânea. Mas a raiva de alguém, de tipo pensar na pessoa, e sentir-se mau.
Todas as pessoas que passaram em minha vida, eu podia discutir, ter desavenças, mas jamais seguir com raiva. Jamais um ser humano passou e deixou um sentimento negativo em meu coração. Hoje vejo a proporção da minha inocência. Não estou me colocando como santa, eu já devo ter magoado, até muito, pode ser. Mas jamais havia sido magoada. Eu era a Pollyana em sua melhor perspectiva.
Mas então eu conheci a dor, em toda sua magnitude. Eu me vi sentada no portão do inferno, pude ver seus reflexos em meus olhos. Senti toda solidão, perdi toda a fé, abracei toda desesperança. Eu desejava o dia, mas a madrugada não acabava.
Moralmente, fisicamente, espiritualmente sem nada.
E a cada corda que eu tentava me agarrar, percebia que era mais uma cilada. Me senti como num pântano escuro, nojento. Talvez o Umbral na sua melhor forma.
Meu melhor amigo, minha segurança, meu tudo, era quem me traia.
Uma doença era palpável, uma dificuldade financeira, mesmo um rompimento amoroso.
Mas toda aquela turbulência de uma vez?
As vezes quando olho para trás e penso o que atravessei, traição, abandono, mentiras,
ver tudo o que construí, tudo o que meu amor tocou, ser tomado de forma cruel, fria. O olhar da minha mãe, a tristeza em seus olhos. E a culpa que senti em decepcioná-la.
Mas tempo todo o universo, o amor se fez presente ao meu lado. Nem por um segundo o universo, o amor, me abandonaram. Em alguns momentos eu pedia para não acordar, queria ter paz, descansar, já tinha sofrido, padecido suficiente...
Era muito duro crer que alguém fosse tão falso. Por mais que repetissem mil vezes o que ele me fez, eu floreava absolutamente tudo, eu o protegia, sempre esmiuçando migalhas onde pudesse encontrar um fiozinho de bondade e justificar o que ele fez.
Durante muito tempo eu respondi que ele fez o que deveria ser feito, que foi querer me proteger.
Hoje eu vejo que ele só protegeu a si mesmo. E eu apoiei isso!
Apoiei toda a maldade, toda a traição. Toda a mentira. Apoiei pois recusava ser tão tola. Acho que pela primeira vez vi a proporção do meu orgulho, ao ver o quando a verdade sempre esteve exposta, primeiramente pelo estado lastimável ao qual o encontrei, o quanto o ajudei, o quanto o protegi sem jamais perceber que o vaso que eu tinha ali na minha sala independente de tudo sempre teria mais valor.
O lado bom de tudo isso é o quão forte me tornei.
Na realidade não sei o quão bom é, pois minha inocência foi roubada. E as vezes, por mais que ame minha nova versão, sinto falta da inocência que ele roubou. Era tola, mas era mais fácil sorrir. Hoje a felicidade tem outras nuances, é mais cara, mais complicada mais cruel, porem bem mais real.
Hoje eu entendo a maldade. Eu a conheço, e de certa forma, me delicio um pouco em suas performances. Hoje eu não tenho receio de jogar esse jogo que ele me ensinou.
É um jogo fechado. A Mesa foi fechada a quase seis meses, longos que eu esperei, até realmente ficar pronta. E claro, eles estão na mesa, com as cartas, apenas me esperando. Somos 4 jogadores fixos, numa única mesa. O jogo irá começar em alguns dias...
Não tenho nem um tipo de ansiedade, pois todo tempo do mundo está do meu lado. Eu tenho o tempo, tenho as cartas e uma paciência infinita. Eles tem somente suas almas sujas como parceiras. Eu tenho o universo do meu.

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